Pragas desafiam a biotecnologia: lepidópteros atingem 80% do milho Bt na Argentina
Levantamento da REM/Aapresid aponta alta adoção de eventos Bt, mas pressão de pragas segue elevada e exige manejo integrado.
Os danos causados por lepidópteros atingiram 80% das lavouras de milho Bt na Argentina na safra 2024/25, segundo a Pesquisa Nacional 2025 da Rede de Manejo de Pragas (REM), conduzida com produtores associados à Aapresid. O levantamento analisou mais de 1,8 milhão de hectares e evidencia um cenário de alta adoção de biotecnologia, mas com pressão crescente de pragas-alvo.
Apesar do uso disseminado de eventos Bt - 82% das áreas apresentaram danos e presença de espécies-alvo -, a pesquisa indica que, na maioria dos casos, não houve necessidade de aplicações extras de inseticidas. Apenas 3% a 15% das áreas receberam reforço químico, com menor incidência em milho Vip e maior em materiais Cry. A lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) foi a espécie predominante nos registros.
O estudo, realizado de forma contínua há quase dez anos, busca mapear o manejo de plantas daninhas, insetos e doenças nos principais cultivos do país, em um contexto marcado por avanços biotecnológicos, pressão de resistências e a necessidade de estratégias diversificadas. No milho, a ampla adoção de eventos Bt reforça ganhos de controle, mas também expõe a importância do manejo integrado de pragas (MIP) para preservar a eficácia das tecnologias.
Na soja, a biotecnologia Intacta manteve a liderança, presente em 78% das áreas avaliadas. Já no manejo de plantas daninhas, Conyza spp. direcionou aplicações na dessecação de primavera, enquanto Amaranthus spp. e Sorghum halepense lideraram os problemas em pós-emergência nas culturas de verão. Em cultivos de inverno, as aplicações pós-emergentes foram raras e, quando ocorreram, focaram Brassicaceae.
No manejo químico, produtores priorizaram HPPD, PPO e ALS em pré-emergência; em pós-emergência, o uso concentrou glifosato, hormonais e graminicidas. Entre as pragas, além de Helicoverpa zea no milho, Rachiplusia nu direcionou aplicações em trigo, girassol e soja, enquanto ácaros (Tetranychus spp.) dividiram protagonismo com a lagarta-medideira na soja.
Quanto às doenças, Puccinia sorghi foi a mais frequente no milho, com poucos casos demandando controle químico. Na soja, Septoria glycines exigiu ao menos uma aplicação em metade das áreas; no trigo, Puccinia striiformis levou a controle químico em mais de 60% das lavouras.
O uso de produtos biológicos avançou de forma consistente: em 2025, 37,7% dos produtores aplicaram algum biológico além de inoculantes - alta de 10 pontos percentuais frente a 2024 -, com bioestimulantes liderando as escolhas. Embora o controle químico siga central no manejo de plantas daninhas, estratégias complementares como cultivos de serviço e redução do espaçamento entre linhas ganharam espaço, reforçando a transição para sistemas mais resilientes.
O retrato do campo argentino deixa um recado claro ao Cone Sul: biotecnologia é essencial, mas não suficiente sozinha. Em um ambiente de pressão seletiva crescente, diversificação de ferramentas, monitoramento e MIP são decisivos para sustentar produtividade e competitividade.

